The Mummy (1959)

6 Abril, 2008

“For the last time, please stop what you’re doing and leave this place!”
“And for the last time, kindly mind your own business.”

Um filme de Terence Fisher, escrito por Jimmy Sangster, com Peter Cushing e Christopher Lee. Trailer.

A Criatura, o Drácula, a criação de Frankenstein, a Múmia, o que têm todos estes em comum? São monstros… apaixonados.

É curiosa esta tendência de dar às feras um lado sensível, e até serve de óptimo pretexto para contratar uma bela actriz e fazer a típica cena em que a donzela desmaia e o monstro a carrega nos braços até ao seu esconderijo secreto. Neste filme a fera sensível é interpretada por Christopher Lee, o constante vilão, que merece aqui ser destacado acima do seu eterno rival de ecrã, Peter Cushing, por dois motivos:

a) passa o filme todo vestido com uma fralda de corpo inteiro, que o faz andar de uma forma muito engraçada. É uma fralda muito convincente, tendo em conta que se estava na década de 50, mas não dá para conter o riso quando a múmia sai do pântano pela primeira vez, naquele andar desajeitado de que não dobra os joelhos. Apesar disto, continua a ser impressionante ver Lee partir portas e irromper janelas adentro como um selvagem.

b) a única parte do corpo de Lee que não está tapada pela fralda gigante são os olhos, e é quase exclusivamente através deles que percebemos a complexidade sentimental do monstro. Christopher Lee é um grande actor — só precisam de ver a intensidade daquele olhar. É incrivelmente triste…

A marca Hammer é evidente em todos os pormenores do filme, logo desde a primeira cena: é o Egipto mais falso que se possa imaginar, evidentemente uma cena de estúdio, com algusn figurantes para dar um ar mais autêntico (através de acções como martelar pedras sem qualquer razão aparente). Mas tudo o que é tosco nesta produção não pode ser visto como nada menos que carinho. Isto é o low budget britânico das décadas de 50 e 60 na sua forma mais pura.

E há que lhes dar algum crédito por terem contratado um egípcio autêntico (ou que parece autêntico), completo com chapéuzinho vermelho (também parece genuíno), que recita pragas assustadoras na língua antiga (ou algo parecido) e mantém um diálogo com a personagem de Cushing que é uma bela coisa de se ouvir: espicaçam-se um ao outro como se as palavras fossem lanças.

Não se pode cair na ilusão de achar que A Múmia vai agradar à maioria dos espectadores de cinema dos dias de hoje. Não vai. Mas é incontornável para quem gosta de uma história em tons góticos e para cinéfilos dedicados. Aqui, mais ainda do que em Drácula, percebe-se porque é que Hammer é sinónimo de clássico.

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Horror of Party Beach (1964)

3 Abril, 2008

It’s a giant protozoa!

Um filme de Del Tenney, escrito por Richard Hilliard, com John Scott, Alice Lyon e Allan Laurel. Trailer. Este filme encontra-se no domínio público.

Horror of Party Beach é um filme quase mítico na sua categoria. Auto-proclama-se “o primeiro musical de monstros” e promete “estranhos monstros atómicos que se alimentam de sangue humano!!!”, monstros esses que se tornaram um autêntico ícone entre os fãs de filmes de culto, provavelmente por serem uma criação bastante ridícula: um primo da Criatura da Lagoa Negra num bad hair day com a boca cheia de cachorros-quentes. Seria interessante ver alguém vestido assim no Carnaval… Estes monstros formaram-se a partir de esqueletos no fundo do mar que se tornaram mutantes mortos-vivos depois de entrarem em contacto com material tóxico que foi despejado no mar.

O filme começa numa festa de adolescentes na praia. Antes que aconteça seja o que for notamos num pormenor: todos os adolescentes na festa parecem um pouco… bem, um pouco velhos. A actriz principal podia perfeitamente fazer de mulher do actor que faz de seu pai neste filme, e o herói da fita está a ficar careca, problema muito comum entre rapazes de 17 anos.

A primeira vítima dos monstros é uma rapariga tola que decide ir nadar sozinha. A certa altura pára para descansar numas rochas, o monstro aparece e ela morre. Esta cena é uma desgraça. Está tudo muito mal enquadrado, com detalhes deixados “pendurados” num grande atabalhoamento, com uma grande barulheira a servir de banda sonora. Isto é recorrente ao longo do filme: todos os ataques são acompanhados pela cacofonia mais desajeitada que se possa imaginar.

Outra coisa recorrente – e irritante – são as partes “musicais”. Quando li “monster musical” pensei numa espécie de Little Shop of Horrors, mas o lado musical de Party Beach consiste em músicas ligeiras tocadas pela banda da festa. Sim, leram bem. O filme está entrecortado por números musicais da banda, que toca na praia e no bar da praia. Os membros da banda não fazem parte da história. É… Nem sequer há palavras para descrever isto.

Acho que foi tudo uma tentativa de prolongar o filme, já que a história em si é contada em mais ou menos meia hora. Assim sendo, o realizador decidiu incluir, para além da banda, sketches “cómicos” ao estilo Malucos do Riso protagonizados por personagens que nunca mais voltam a aparecer. As piadas vão desde o péssimo ao horrendo, e o resto do guião vai pelo mesmo caminho, com erros lógicos e científicos para dar e vender.

Os filmes de culto podem ser muito bons (Barbarella) ou muito maus (Basket Case). Mas este transcende a escala – é o fundo do poço, o pior dos piores, o maior desperdício de tempo e filme à face da Terra, péssimo até mesmo dentro dos padrões dos filmes B. Evitem qualquer contacto com Horror of Party Beach.

0 ratos na cave

A parte chata das listas

30 Março, 2008

Embirro com listas destas. Bem sei que são normalmente feitas em tom jocoso, meras piscadelas de olho entre cinéfilos, e realmente não há mal nenhum nisso, mas embirro na mesma e passo a explicar porquê.

A maior parte das “queixas” em listas deste género são detalhes de realismo. Porque é que ninguém tranca a porta, porque é que não compram bilhete, porque é que não vão à casa-de-banho, porque é que não fazem isto e não fazem aquilo que toda a gente sabe que toda a gente faz.

Pois bem, tentem imaginar um filme em que o realizador filma tudo isso. Sabem qual vai ser o resultado? Um aborrecimento mortal. Quero lá saber se trancam o carro ou se fazem pausas para aliviar a bexiga; isso não tem nada a ver com a história, e o cinema não é isso.

Já dizia o bom velho Hitchcock, o cinema é a vida sem as partes chatas. Acho que trancar portas se qualifica como “parte chata”.

Save The Green Planet! (2003)

29 Março, 2008

Não mintas! Eu sei muito bem quem tu és. És um alien!

Um filme de Joon-Hwan Jang, escrito pelo próprio, com Ha-kyun Shin, Yun-shik Baek e Jeong-min Hwang. Título Original: Jigureul Jikyeora! Trailer.

421px-save_the_green_planet_poster.jpgJoon-Hwan acordou certa manhã com vontade de algo diferente. Então pôs na misturadora a trilogia de vingança de Chan-wook, O Príncipe do Egipto, alguns episódios da Twilight Zone, uma mão decepada, e dois ou três filmes de ficção científica de segunda categoria. Depois ainda juntou A Evolução das Espécies, e uma comédia absurda só porque sim – estava a sentir-se aventureiro. A papa resultante foi trabalhada à boa maneira coreana e deixada a secar de um dia para o outro. E o que nos chega hoje na conveniente forma de DVD – mas não em Portugal; cá não há nada para ninguém – é Save the Green Planet!, um filme estranhamente cativante.

Byeong-gu é o nosso herói, que vive atormentado pela responsabilidade de ser o único humano à face da Terra que conhece o terrível plano dos aliens para destruir o planeta e todos os seus habitantes. Ajudado pela sua dedicada namorada, Su-ni, Byeong-gu aponta todas as suas descobertas e cálculos, incluindo detalhes sobre todos os aliens que desmascara – isto porque os andromedianos podem assumir forma humana e viver disfarçados entre nós. Byeong-gu sabe que só existe uma maneira de lidar com estes intrusos: raptá-los e prendê-los na sua cave até que admitam a sua verdadeira natureza ou sucumbam. Tudo vai bem até ao dia em que captura Kang, um alien de tremenda importância, tanto em Andromeda como na Terra. Kang vai revelar-se uma grande carga de trabalhos…

Save the Green Planet! é de tal modo desregrado que espectadores menos precavidos correm o risco de ficar perdidos em frente ao ecrã. É que este filme tanto podia ser uma simples paródia como um drama poderoso como um sci-fi de argumento duvidoso. E no fundo é tudo isto mas melhor: mais inteligente… e bastante mais parvo também. É legítimo perguntar se Joon-Hwan alguma vez levou a sério o seu projecto, e se sim porque é que incluiu uma cena com um polícia a balear abelhas.

No entanto fazer essa pergunta é desviarmo-nos do ponto em questão, porque mesmo nas situações mais parvas e de desenho animado, Joon-Hwan consegue ser tão inovador, por vezes até poético, com o seu mise-en-scène e truques de câmara que tudo se torna aceitável. Save the Green Planet! é um filme arriscado (os asiáticos tendem a safar-se muito bem com coisas destas), é selvagem e incongruente, absurdo e caricato. Mas funciona. Surpreendentemente, funciona.

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Parents (1989)

27 Março, 2008

“What’s this we’re eating?”
“Leftovers.”
“We’ve been eating leftovers ever since we moved. I wanna know what they were before they were leftovers.”
“They were leftovers-to-be.”

Um filme de Bob Balaban, escrito por Christopher Hawthorne, com Randy Quaid, Mary Beth Hurt e Bryan Madorsky.

ParentsOs pais do pequeno Michael são duas criaturas sinistras. A mãe é uma dona de casa muito dedicada à cozinha, onde prepara refeições elaboradíssimas. O pai faz sabe Deus o quê o dia todo e quando chega a casa gosta de assustar o filho com a sua austeridade e de comer as carnes que a mulher prepara. E aqui está um dos pormenores horríveis desta família: comem tanta carne! Ao pequeno-almoço, ao almoço, ao lanche, ao jantar, antes de dormir, só carne, carne, carne, é absolutamente nojento.

Portanto não é de estranhar que Michael tenha pesadelos. Com carne. Michael é um miúdo estranho, mas a sua estranheza é inteiramente fruto das circunstâncias. Se duvidam, vejam: o pai conta-lhe coisas como a receita da invisibilidade (que consiste em chupar ossos de gato preto assado vivo no forno) e histórias sobre um menino mal-comportado que cresceu e se tornou um homenzinho triste e egoísta; a mãe dá-lhe quantidades obscenas de carne e diz-lhe “sai daqui, Michael” de uma forma tão maternal que faz lembrar Freddy Krueger; conduzem um “oldsmobile” e os dois fazem coisas esquisitas a meio da noite com “roupa lavada” e quantidades suspeitas de algo extremamente parecido com sangue.

Como é que Michael pode ser um rapaz normal? Pois bem, não é, mas não é o único. Sheila, sua colega de turma, diz que veio da Lua, onde não há pais, e pretende voltar quando acabar a escola – e levar Michael com ela. Os dois desenvolvem uma capacidade extraordinária de se meter em sarilhos, sarilhos que vão aproximar Michael da verdade sobre os seus pais.

Parents tem uma premissa interessante, mas é o primeiro feature de Balaban e isso nota-se. Há uma certa confusão em alguns planos, que aparecem no ecrã como intrusos num conjunto, e várias imprecisões lógicas na acção que se tornam particularmente irritantes nalgumas cenas, como aquela em que o pai parece ficar surdo e cegueta e não dá pela presença evidente de Michael, o jovem peeping-tom-to-be.

É interessante como uma criança inexpressiva funciona tão bem num filme deste tipo. Neste campo, Madorsky promete; tem um ar perpetuamente triste e sério, que assenta em Michael como uma luva. É pena que não tenha feito mais filmes. No geral, Parents é um filme comme ci comme ça, mas tem o seu humor negro e satisfaz os desejos básicos de quem procura um filme de terror: uma atmosfera inquietante q.b. com um ou dois sustos pelo meio. Convém é dizer que é tudo muito campy.

E a moral da história? Meat is murder – muito literalmente.

Red Dragon (2002)

27 Março, 2008

Do you dream much, Will?

Um filme de Brett Ratner, escrito por Ted Tally adaptado do livro de Thomas Harris, com Anthony Hopkins, Edward Norton e Ralph Fiennes. Título português: Dragão Vermelho. Trailer.

Dragão Vermelho é a “prequela” de Silêncio dos Inocentes. A história passa-se antes de Hannibal conhecer Clarice, mas depois da sua captura. O agente que desmascarou os crimes canibalescos de Hannibal é William Graham, que está agora a trabalhar no caso da Fada dos Dentes, um assassino perverso com uma tendência para morder as suas vítimas.

Silêncio dos Inocentes focava-se em Clarice e na sua relação com Hannibal. Já neste filme, Brett Ratner decidiu mostrar-nos antes a psicologia da Fada dos Dentes através dos olhos do próprio. O efeito funciona: pode não haver simpatia, porque afinal de contas o homem é louco e assassino, mas há certamente empatia.

A Fada dos Dentes, Mr. D para os amigos, é o mistério que Dragão Vermelho nos propõe desvendar. O que é que motiva um homem assim? Traumas de infância, claro, mas há mais que isso, e O Grande Dragão Vermelho e a Mulher Vestida de Sol, uma das pinturas mais famosas de William Blake, está no cerne da questão. Aos poucos o véu é levantado se a sua demente luta interna é exposta. Mr D. cede ou não? E comer papel vai ajudar? São algumas das coisas que ficamos com vontade de saber. Mas tudo acerca de Mr D e das suas “transformações” é intrigante.

Hannibal também o é, e surge aqui mais maquiavélico do que no episódio anterior. A relação que o canibal estabelece com Will está longe de ser parecida como a de Clarice. Will é bastante mais resistente, não se entrega às seduções de Hannibal e irrita-se com os seus enigmas. É refrescante saber que se conseguiu fazer uma segunda parte de um sucesso sem cair na perigosa tentação de fazer “mais do mesmo”.

Há paralelos, claro, mas são mais ao nível da imagem, que permanece simbólica, do que da história. Quem viu o primeiro filme vai reparar que embora Crawford esteja bastante diferente, aquele quadro onde afixa os pormenores da investigação continua intacto, e apesar de Dr. Chilton também ter mudado, a cena em que conduz Will até Hannibal pela primeira vez é bastante reminiscente da filmada uns anos antes com Jodi Foster. São pequenas atenções que agradam a quem viu o primeiro filme, sem cansar o espectador com citações e referências.

Dragão Vermelho aguenta-se sem o amparo do irmão mais velho e afirma-se como um apetecível festival de suspense, polvilhado aqui e ali com alguns pormenores engraçados (comecem por procurar Jaws). É um filme carismático, e acima de tudo, a encarnação daquilo que é um verdadeiro thriller policial. Recomenda-se.

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Barbarella (1968)

13 Março, 2008

The password will be Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch.

Um filme de Roger Vadim, escrito pelo próprio e por Terry Southern, adaptado da banda desenhada de Jean-Claude Forest. Com Jane Fonda, John Phillip Law e David Hemmings. Trailer disponível aqui.

Mas que banda sonora! Começar um comentário a um filme B com elogios profusos à música é capaz de ser invulgar, mas neste caso não dá mesmo para começar por outro lado. A banda sonora de Barbarella é tão gira que parece de outro mundo. A sonoridade não podia ter vindo de nenhum outra década que não os psicadélicos anos 60. Às vezes é cacofónica, outras aparvalhada, mas sempre muito agradável a ouvidos destemidos. Bom trabalho, Bob Crewe e Charles Fox!

Esta maravilha sonora acompanha as aventuras de Barbarella, enviada pelo Presidente da Terra numa missão de resgate. Na sua busca por Durand Durand (o nome é capaz de vos ser familiar), Barbarella encontra vários perigos e inimigos, e também alguns amigos, entre os quais Pygar, o anjo cego que já não sabe voar.

Barbarella é um clássico dos filmes B. É um filme de culto e com boa razão, porque Barbarella ou se adora ou se odeia. (Não) surpreendemente, há mais gente a odiá-lo do que a proclamá-lo como obra-prima. A própria Jane Fonda diz que fez outros papéis muito mais interessantes que Barbarella. É verdade, ainda que rapazes pubescentes queiram discordar — quantos filmes de Jane Fonda começam com um strip em gravidade zero? Barbarella é bem capaz de ser o único.

Se parece então que este é um daqueles filmes em que a criatividade foi toda investida em novas formas de mudar a roupa de Jane Fonda de um vestido curto para um fato justo, então não se está muito longe da verdade. E como low budget que é temos ainda direito aos pequenos artifícios revelados no ecrã, como a máquina de fumo visível ou o estranho aparelho escondido nas asas de Pygar durante os seus voos. Mas a graça de Barbarella é ser um filme que não se leva a sério. É divertido, educativo (porque se aprende a palavra Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch) e cheio de homenagens (vejam-me aqueles pássaros), tudo à volta de uma mulher emancipada, Barbarella, rainha da galáxia.

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Diz-se por aí que há planos para um remake de Barbarella. Estou a cruzar os dedos para que nunca se concretize, mas se tudo correr mal e a ideia for para a frente, quem gostariam de ver na pele de Barbarella?

Rosemary’s Baby + Michael Bay??

13 Março, 2008

Diz-se que Michael Bay quer fazer um remake de Rosemary’s Baby (A Semente do Diabo, Roman Polanski). Porquê?! Alguém prenda este homem.

Sweeney Todd (2007)

10 Março, 2008

How about a shave?

Um filme de Tim Burton, escrito por John Logan, a partir do musical de Stephen Sondheim, com Johnny Depp, Helena Bonham Carter, e Alan Rickman. Título português: Sweeney Todd – O Terrível Barbeiro de Fleet Street. Trailer.

Os musicais são tão raros hoje em dia que é sempre ocasião para festa quando aparece um. E quando é um musical de terror, um musical de terror trágico, por Júpiter, estarei a sonhar? Parece bom de mais para ser verdade. O problema é que é mesmo. Não há rosas sem espinhos, é um facto.

Comecemos pelo bom. A história. Sim, sim, a história é óptima, é trágica, é macabra, é horrível, é maravilhosa, é precisamente aquilo que esperamos de Tim Burton e exactamente aquilo que devia sair de Hollywood mais vezes. Há amor, traição, vingança e canibalismo involuntário – uma receita para o sucesso, especialmente nas mãos de Tim Burton, que sabe embrulhar Sweeney, Mrs Lovett e as suas vítimas numa atmosfera de escuridão sinistra muito gótica.

Mas no meio disto tudo, Burton decide dar um toque do surreal ao visual do filme. O sangue é espesso e brilhante, e algumas superfícies e texturas têm obviamente o dedo mecânico de um computador. E se esta ideia aplicada à violência foi muito bem conseguida, no resto já não tenho tanta certeza. Faz lembrar um pouco aqueles primeiros desenhos animados inteiramente feitos a computador, que tinham sempre um ar desajeitado e falso. Isto é o mau.

Agora o horrível… O horrível é simplesmente atroz! Aquela tentativa de cantoria por parte de Depp e Bonham Carter é terrível. Não há sequer uma maneira delicada de o dizer: este elenco não sabe cantar, ponto final.

O problema não está na música e muito menos nas letras, que têm momentos de pura genialidade (A Little Priest é talvez o melhor exemplo). Mas são trucidadas pelas vozes. The Worst Pies in London, a música de apresentação de Mrs Lovett, é uma óptima ilustração desta ofensa. Devia ser um dos pontos altos do filme, tanto na sugestão de um ambiente como em comédia, e no entanto é abortada pelos guinchos e gemidos de Bonham Carter.

Depp consegue ser um pouquinho melhor. Tem uma voz suficientemente grave e carismática para nos convencer da vilania de Sweeney, mas não é capaz de a adaptar para exprimir nenhuma emoção. Este é o ponto fulcral de um musical: que seja a música a emocionar o espectador. Como quando Julie Andrews transborda alegria ao enumerar as suas coisas preferidas, ou quando Ted Neeley alterna entre profunda angústia, raiva e resignação no Getsémane, ou ainda quando Madonna pede à Argentina que não chore.

É preciso haver o mínimo de elasticidade na voz de um actor num musical, porque isso é tão importante quanto a expressividade física de um actor em qualquer outro filme. Ver Johnny Depp fugir às notas difíceis ou ouvir Helena Bonham Carter consistentemente a falhá-las todas é tão estimulante como assistir à performance de alguém com muito botox na cara e um caso crónico de prisão de ventre.

Talvez Burton tivesse acertado na coisa se não estivesse tão acorrentado à sua musa e ao seu muso. Era provável que sim, porque esteve lá perto com Jamie Bower, um querubim muito afinadinho, com Ed Sanders, um rapaz de extremo potencial, e ainda com Jayne Wisener, que possui uma voz extremamente agradável ainda que lhe falte alguma robustez. De resto, Sacha Baron Cohen é uma agradável surpresa: está absolutamente irrepreensível (e irreconhecível). E Alan Rickman é Alan Rickman, que apesar de não ter a melhor voz para cantar tem definitivamente a melhor voz para falar. A sala estremece cada vez que ele pronuncia uma palavra!

Com este elenco de óptimos actores (actores, não cantores) e toda esta produção nas mãos de Tim Burton, Sweeney Todd teria sido um excelente filme sem canções. Mas enquanto musical é apenas medíocre, no máximo. O que não invalida que possa ser uma boa experiência cinematográfica – para ouvidos moucos, isto é.

To Die For (1995)

22 Fevereiro, 2008

Being on television makes you a better person.

Um filme de Gus Van Sant, escrito por Buck Henry, adaptado do livro de Joyce Maynard, com Nicole Kidman, Joaquin Phoenix, Alison Folland e Casey Affleck. Título português: Disposta a Tudo. Trailer.

Não é um filme sobre miúdos, como podemos antecipar ao ler “um filme de Gus Van Sant”, mas Disposta a Tudo também é sobre miúdos, nomeadamente Jimmy, que não joga com o baralho todo, Lydia, que é bem tratada pela vida, e Russell, que, enfim, é um rapaz adolescente numa pequena aldeia americana. Mas acima de tudo, Disposta a Tudo é sobre a criança-adulta Suzanne Stone. O maior desejo, aliás, o único desejo de Suzanne é estar na televisão. Porque estar na televisão torna as pessoas melhores. E porque, sejamos honestos, de que vale fazer seja o que for se ninguém estiver a ver?

Disposta a Tudo é uma espécie de mockumentary, um falso documentário sobre Suzanne e o caso da morte de Larry Moretto, o seu marido. Antes de conhecer Larry, Suzanne não passava de um pote de sonhos na demanda por uma carreira de sucesso na televisão. No entanto, depois do casamento decide trabalhar a sério para conseguir o que quer. É assim que consegue o posto de apresentadora do boletim metereológico, e corre tudo bem até Larry se atravessar no seu caminho e ter de ser despachado por três miúdos.

Disposta a Tudo é um filme menos introspectivo do que Elephant ou o recente Paranoid Park, mas nem por isso menos profundo. Suzanne é mais um estudo sobre a obsessão com a celebridade do que uma caricatura. Na sua mente infantil, todas as câmaras e todos os flashes se dirigem a ela. Ela é uma pura narcisista, e o seu comportamento é quase autista — e é aqui que Disposta a Tudo vai beber muito do seu humor (bastante negro, por vezes). Ninguém chega realmente a perceber Suzanne, e ela não percebe nenhum dos que a rodeiam. Ela é uma extra-terrestre em Little Hope, uma celebridade-to-be numa aldeia americana. E quantos não há como ela?

Nicole Kidman é perfeita neste papel. Fria e manipuladora, mas ao mesmo tempo doce e inocente, Nicole mostra aquilo que Suzanne realmente é: a ambição personificada numa criança-adulta. A outra performance de relevo em Disposta a Tudo é de Joaquin Phoenix, aqui no princípio da sua carreira. Há uma genuidade quase perturbadora no seu retrato das limitações e obsessões de Jimmy.

Disposta a Tudo é um filme interessante, não só por este estudo de personagens, mas pela maneira como o filme se constrói e estuda a si próprio. As entrevistas, entrecortadas com o pitch de Suzanne para Hollywood, recortes de jornal, flashbacks e flashforwards, imagens multiplicadas, e uma data de outros artifícios que Van Sant tem na manga, tornam Disposta a Tudo um filme que vale a pena ver. E o final definitivamente não desaponta: é belo e macabro, quase saído directamente da Nona Onda.

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