Arquivos para a Categoria ‘2 Ratos na Cave’

Sweeney Todd (2007)

10 Março, 2008

How about a shave?

Um filme de Tim Burton, escrito por John Logan, a partir do musical de Stephen Sondheim, com Johnny Depp, Helena Bonham Carter, e Alan Rickman. Título português: Sweeney Todd - O Terrível Barbeiro de Fleet Street. Trailer.

Os musicais são tão raros hoje em dia que é sempre ocasião para festa quando aparece um. E quando é um musical de terror, um musical de terror trágico, por Júpiter, estarei a sonhar? Parece bom de mais para ser verdade. O problema é que é mesmo. Não há rosas sem espinhos, é um facto.

Comecemos pelo bom. A história. Sim, sim, a história é óptima, é trágica, é macabra, é horrível, é maravilhosa, é precisamente aquilo que esperamos de Tim Burton e exactamente aquilo que devia sair de Hollywood mais vezes. Há amor, traição, vingança e canibalismo involuntário – uma receita para o sucesso, especialmente nas mãos de Tim Burton, que sabe embrulhar Sweeney, Mrs Lovett e as suas vítimas numa atmosfera de escuridão sinistra muito gótica.

Mas no meio disto tudo, Burton decide dar um toque do surreal ao visual do filme. O sangue é espesso e brilhante, e algumas superfícies e texturas têm obviamente o dedo mecânico de um computador. E se esta ideia aplicada à violência foi muito bem conseguida, no resto já não tenho tanta certeza. Faz lembrar um pouco aqueles primeiros desenhos animados inteiramente feitos a computador, que tinham sempre um ar desajeitado e falso. Isto é o mau.

Agora o horrível… O horrível é simplesmente atroz! Aquela tentativa de cantoria por parte de Depp e Bonham Carter é terrível. Não há sequer uma maneira delicada de o dizer: este elenco não sabe cantar, ponto final.

O problema não está na música e muito menos nas letras, que têm momentos de pura genialidade (A Little Priest é talvez o melhor exemplo). Mas são trucidadas pelas vozes. The Worst Pies in London, a música de apresentação de Mrs Lovett, é uma óptima ilustração desta ofensa. Devia ser um dos pontos altos do filme, tanto na sugestão de um ambiente como em comédia, e no entanto é abortada pelos guinchos e gemidos de Bonham Carter.

Depp consegue ser um pouquinho melhor. Tem uma voz suficientemente grave e carismática para nos convencer da vilania de Sweeney, mas não é capaz de a adaptar para exprimir nenhuma emoção. Este é o ponto fulcral de um musical: que seja a música a emocionar o espectador. Como quando Julie Andrews transborda alegria ao enumerar as suas coisas preferidas, ou quando Ted Neeley alterna entre profunda angústia, raiva e resignação no Getsémane, ou ainda quando Madonna pede à Argentina que não chore.

É preciso haver o mínimo de elasticidade na voz de um actor num musical, porque isso é tão importante quanto a expressividade física de um actor em qualquer outro filme. Ver Johnny Depp fugir às notas difíceis ou ouvir Helena Bonham Carter consistentemente a falhá-las todas é tão estimulante como assistir à performance de alguém com muito botox na cara e um caso crónico de prisão de ventre.

Talvez Burton tivesse acertado na coisa se não estivesse tão acorrentado à sua musa e ao seu muso. Era provável que sim, porque esteve lá perto com Jamie Bower, um querubim muito afinadinho, com Ed Sanders, um rapaz de extremo potencial, e ainda com Jayne Wisener, que possui uma voz extremamente agradável ainda que lhe falte alguma robustez. De resto, Sacha Baron Cohen é uma agradável surpresa: está absolutamente irrepreensível (e irreconhecível). E Alan Rickman é Alan Rickman, que apesar de não ter a melhor voz para cantar tem definitivamente a melhor voz para falar. A sala estremece cada vez que ele pronuncia uma palavra!

Com este elenco de óptimos actores (actores, não cantores) e toda esta produção nas mãos de Tim Burton, Sweeney Todd teria sido um excelente filme sem canções. Mas enquanto musical é apenas medíocre, no máximo. O que não invalida que possa ser uma boa experiência cinematográfica – para ouvidos moucos, isto é.

The Little Girl Who Lives Down The Lane (1976)

16 Fevereiro, 2008

“Is your father home?”
“He’s in his study.”

Rynn é uma independente rapariguinha de 13 anos que acabou de se mudar com o pai. Quando começam a aparecer visitas, procuram naturalmente conhecer o adulto da casa, que está sempre “no escritório”, “a dormir” ou “fora”. Quando as perguntas começam a tornar-se insistentes, só há uma solução para Rynn.

Ficha Técnica: De Nicolas Gessner, escrito por Laird Koenig baseado num livro do próprio, com Jodie Foster e Martin Sheen.

Shock! Horror! Suspense!: The Little Girl Who Lives Down The Lane é insistentemente classificado como filme de terror, mas não o é na verdade. Há algo inquietante e contranatura em Rynn, mas nada muito assustador – pelo menos a um nível superficial. Por outro lado é um filme muito interessante enquanto thriller psicológico, ainda que a situação seja duvidosa (até que ponto é que uma criança de 13 anos consegue ser independente?). O suspense não é suficiente para provocar um ataque a um cardíaco, mas está lá e é eficiente; temos até uma pequena surpresa ou duas.

Aplausos: Alguém no imdb referiu-se à banda sonora como “cheesy 70s wackikiccha-waaa music”. Talvez seja, mas eu achei-a muito gira. Não contribui para o suspense, mas é tão gira que dá um ar um bocado surreal aos acontecimentos. Jodie Foster está muito bem, como sempre. E gosto de filmes em que alguém decide gritar “Get Out Of My House!” (esta é a altura em que pisco o olho a Kate Bush.)

Queixas: Rynn é uma espécie de Lolita…

Comentário: The Little Girl Who Lives Down The Lane é um filmezinho bom, ainda que detentor de um título e poster enganadores. Exige do espectador que deixe passar algumas inconsistências. Nunca explica, por exemplo, porque é que Mario, futuro namorado, se decide aliar imediatamente a Rynn, nem como é que um pedófilo como Frank ainda anda à solta, e muito menos como é que a rapariguinha tem toda a liberdade que tem. Mas caso se consiga suspender a descrença tudo no filme funciona, desde o princípio até à óptima cena final.

Honogurai Mizu No Soko Kara (2002)

16 Fevereiro, 2008

Água e fantasmas japoneses.

Yoshimi quer refazer a sua vida depois do divórcio. Muda-se com a filha, Ikuko, para um apartamento, mas rapidamente descobre que aquela não foi a escolha mais acertada. Para além de o sítio meter água, há uma rapariguinha que aparece e desaparece…
Trailer aqui.

Ficha Técnica: De Hideo Nakata, escrito por Yoshihiro Nakamura, com Hitomi Kuroki, Rio Kanno e Mirei Oguchi.
Título português: Águas Passadas (uau, um bom título!)

Shock! Horror! Suspense!: Eu diria que é moderadamente assustador. A rapariga-fantasma é sinistra, como qualquer criança-fantasma, e ainda por cima usa uma gabardina amarela (Don’t Look Now?). A atmosfera (em certas alturas) é bastante reminescente de The Ring, e em determinada cena do clássico The Shining. O problema é que o filme é um bocado lento demais. É mais um drama do que um filme de terror ou (ah ah) um thriller (ah ah), como foi classificado.

Aplausos: Cabelos a sair de torneiras é das coisas mais horríveis de que se podiam ter lembrado. Yuck!

Queixas: O andamento. Funciona bem do ponto de vista da tragédia e do drama, mas para terror acaba por não ser muito bem sucedido.

Comentário final: Esperava mais. A história tem profundidade, e calculo que corações sensíveis derramem uma lágrima ou outra no final, mas o lado macabro da situação pareceu-me subaproveitado. Terror? Nem por isso. É mais drama com fantasmas.
Em 2005 fizeram um remake americano deste filme. Pode ser que seja melhor, mas a julgar por outros remakes de filmes asiáticos acho que não.

The Howling (1981)

16 Fevereiro, 2008

Silver bullets or fire, that’s the only way to get rid of the damn things. They’re worse than cockroaches.

Karen White aceita servir de isco numa operação para capturar um assassino. Quando as coisas não correm de acordo com o plano, Karen entra em choque e é enviada para uma clínica de recuperação, onde encontra outros como ela. Ou outros que não são como ela.
Trailer aqui. (não sei o que é que se passa com estes trailers dos anos 80… 90% das vezes dizem a história toda mas este exagera! Grandes spoilers, atenção!)

Ficha Técnica: De Joe Dante, escrito por John Sayles e Terence H. Winkless, com Dee Wallace e Christopher Stone. Baseado no romance de Gary Brandner.

Shock! Horror! Suspense!: The Howling é considerado uma das obras primas dentro do subgénero dos lobisomens. As transformações são fixes (apesar de às vezes parecer mesmo que os estão a encher com ar - provavelmente estavam), e há uma certa originalidade na visão da licantropia apresentada neste filme. No entanto isto não me impede de ter achado risível ver lobisomens a andarem como se fossem homens (apesar de tecnicamente serem). Estragou completamente o clima. Isso e a falta de uivos à lua cheia…

Aplausos: Há um ou outro ponto que me agradou, mas nada que me impressionasse. Se bem que apreciei o facto de este filme ser sério, ou seja, não havia personagens cujo único objectivo fosse apenas forçar algum humor.

Queixas: A caça não precisava de ter sido mostrada de forma tão explícita. A banda sonora é demasiado gótica e dramática para a acção do filme - inclui um órgão até -, é tudo muito gothic horror, mas depois vai-se a ver e não há nada de gothic horror no ecrã. A última transformação é um bocado parva.

Comentário final: Tinha grandes expectativas para The Howling, e fiquei desiludida com quase tudo. Definitivamente não considero lobisomens criaturas muito interessantes.
A quem quer ver um filme de lobisomens recomendo antes Ginger Snaps.

Enemy Mine (1985)

16 Fevereiro, 2008

Enemies because they were taught to be. Allies because they had to be. Brothers because they dared to be.

Algures no futuro, Humanos e Dracs estão em guerra. Quando a nave se despenha num planeta deserto, Davidge vai ter que lutar pela sobrevivência. Ali despenhou-se também um Drac. Será que a guerra continua entre os dois ou há tréguas?
Trailer aqui.

Ficha Técnica: De Wolfgang Petersen, escrito por Edward Khmara, com Dennis Quaid e Louis Gossett Jr. Baseado num livro de Barry Longyear.
Título Português: Inimigo Meu

Shock! Horror! Suspense!: Enemy Mine é ficção-científica (aliás, drama), mas há umas criaturas que saem da areia que são nojentas e assustadoras. E os Dracs são feios.

Aplausos: Quando Jerry fala da doutrina de um sábio Drac, Davidge responde que já viu aquilo num Livro dos Humanos. E Jerry responde: “Of course you have. Truth is Truth.”

Queixas: Não é muito credível que se aprenda uma língua tão diferente da nossa com aquela facilidade toda. Mas isto é um (bom) filme e pormenores como este pouco interessam.

Comentário final: Vi este filme pela primeira vez quando tinha uns 9 anos. Gostei, e evidentemente teve algum impacto em mim, porque 10 anos mais tarde ainda me lembrava. Claro que só me lembrava que havia um alien com dois dedos e sabia vagamente que havia uns bichos esquisitos na areia; toda a filosofia e moral do filme perdeu-se. É pena, porque o filme é de facto muito bonito, com uma boa mensagem de tolerância e amizade. Ainda bem que o voltei a ver. Se não viram Enemy Mine quando tinham 9 anos, aproveitem e vejam-no agora.

The Creeping Flesh (1973)

16 Fevereiro, 2008

Peter Cushing & Cristopher Lee mais uma vez.

Um cientista regressa a casa com um achado incrível: um enorme esqueleto pré-histórico. Por acidente descobre que o esqueleto possui a capacidade de se regenerar quando entra em contacto com a água. Depois de analisar o sangue, decide usá-lo para imunizar a sua única filha contra “insanidade hereditária”. Depois disso corre tudo mal.

Ficha Técnica: De Freddie Francis, escrito por Peter Spenceley e Jonathan Rumbold, com Peter Cushing e Cristopher Lee.
Título Português: Em Carne Viva

The Creeping Flesh é muito ao estilo dos filmes Hammer, com uma atmosfera gótica e a excelente dupla Cushing-Lee. A história é mais complexa do que parece. Para além da rivalidade entre irmãos/cientistas, este filme explora também a oposição entre o crédulo e o céptico. Até que ponto temos que ver para crer? E em quem acreditar? O próprio espectador é deixado na incerteza (ou não).

The Creeping Flesh é um filme que não tem pressa. O desenvolvimento da situação e das personagens é complexo, salpicado com alguns acontecimentos estranhos relacionados com o esqueleto. Mas sabe a pouco. Começa promissoramente, mas perde o rumo a meio. Perde-se de tal maneira que surge a pergunta, ainda estou a ver o mesmo filme? É que são mais de 20 minutos mais ou menos chatos sobre um assunto que acaba por nem ser assim tão relevante. A alturas tantas já não queremos saber da mãe morta, nem da filha louca, queremos é que voltem ao tema principal e que alguém despeje água no esqueleto para ver o que acontece.

Há que ter paciência; as coisas acabam por acontecer, e trazem uma óptima justiça irónica consigo. O final é muito bom. A última imagem, em particular, é horrível (no melhor sentido possível)! Mas a verdade é que mesmo que o final não salvasse o filme, The Creeping Flesh já valia pelos desempenhos de Peter Cushing e Cristopher Lee, e pelo grande trunfo: um monstro com uma psicologia no mínimo invulgar. Será que uma criatura que se vinga daquela maneira é mesmo O Mal em Carne e Osso?

Shock! Horror! Suspense!: The Creeping Flesh é terror, mas não é lá muito assustador. Não há sangue nem violência explícita (o que é sempre positivo), mas o suspense tem quebras a mais para conseguir segurar 1h30 de filme. Para além do final só há de facto duas cenas memóraveis, entre elas o confronto entre Hildren e o monstro, que tarda, mas chega com grande pompa e circunstância.
Não procurem mais do que horror psicológico em The Creeping Flesh. O mais provável é que se desiludam e fiquem a pensar em Gremlins o resto do dia.

In The Mouth of Madness (1995)

16 Fevereiro, 2008

Do you read Sutter Cane?

John Trent foi contratado para descobrir o mistério por trás do desaparecimento de Sutter Cane, o escritor mais popular do momento. O que John descobre vai muito para além disso. Será possível que ficção e realidade se confundam?
Trailer aqui.

Ficha Técnica: De John Carpenter, escrito por Michael de Luca, com Sam Neill e Julie Carmen.
Título Português: A Bíblia de Satanás (ora aqui está um mau título)

Shock! Horror! Suspense!: Temos uma espécie de Einstein numa bicicleta no meio de uma estrada deserta, um quadro que muda, um bando de miúdos sinistros, um novo Damien louro, e alguns contorcionismos dignos de um exorcismo. Mas subitamente o enredo deixa de existir e o filme transforma-se numa série de acontecimentos surreais. Quando toda a gente se começa a transformar em polvo é uma boa altura para dizer que o filme se perdeu no ridículo. Luzes de relâmpagos (numa cela fechada…) é uma técnica demasiado evidente para ser eficaz, e pessoas com deformações (ou lepra?) já estão tão batidas que nem chocam. Mas coisas-polvo é o fim da picada.

Aplausos: O final. O “contorcionismo”. A cena em que John e o colega conversam distraidamente no café enquanto lá fora se aproxima um louco de machado em punho.

Queixas: Tirando o facto de toda a gente se transformar em polvo, de haver um quase-romance despropositado e de o enredo desaparecer, há uma coisa que me incomoda bastante. John descobre um mapa nas capas dos livros de Sutter Cane. Como é que ele o faz, querem saber? Olha para elas dois segundos, corta-as aos bocados e depois junta-as como se fossem um puzzle para miúdos de 4 anos. Sinceramente, nunca vi coisa mais estúpida.

Comentário: Gosto da premissa deste filme. A ideia de livros tornados realidade é boa, por acaso. Mas John Carpenter esquece-se que nós não lemos Sutter Cane. Logo não sabemos de onde vieram aqueles miúdos, ou se os polvos têm alguma relevância. Coisas assustadoras só por si não metem medo, é preciso haver algum contexto, e aqui limitam-se a ser atiradas para o meio da história. Mas gostei do final. E do princípio. É mesmo pena que o meio não faça sentido nenhum.